segunda-feira, 21 de outubro de 2013


A virtude do ZELO segundo São Vicente de Paulo

(retirado do livro “Liderança Mística”, a ser publicado em novembro de 2013)


Para Vicente de Paulo, zelo é o "amor em fogo", o que significa a paixão de trabalhar incansavelmente para realizar a vontade de Deus, para "transformar corações", para servir os Pobres, para evangelizar, e para encorajar outros a fazer o mesmo.

Pe. Robert Maloney, ex-Superior Geral da Congregação da Missão, propõe algumas formas práticas para exercitar o zelo:


1. O zelo se expressa em nosso dia-a-dia.

Mais e mais o cristão percebe que, às vezes, é mais difícil viver pelo Cristo que morrer por Ele. Seu zelo se mostra na vontade de continuar a fazer a vontade de Deus, especialmente no desencorajamento do dia-a-dia: é preciso despertar todos os dias, agradecer a Deus pelo dom da vida e recomeçar a nossa missão. 


2. O zelo se expressa na vontade de buscar mais operários para a colheita.

O amor é infectuoso e o zelo é o fogo que o espalha. O amor em chama deve buscar se comunicar com os outros, fazê-los sentir o mesmo fogo, assumir o mesmo zelo pela missão de servir.
 

3. O zelo faz do cristão um empreendedor social efetivo, pela confiança na Providência Divina.

Se a nossa vontade é de servir a Deus, então tudo virá Dele – é o Seu trabalho, não o nosso.  Santa Teresa de Calcutá dizia que “nunca foi entre nós e os homens, mas entre nós e Deus”.  Se é uma obra divina, alcançará os objetivos, conseguiremos superar nossas próprias fraquezas, conseguiremos empreender e obter os resultados a que nos propomos.
 

4. O zelo faz do cristão um empreendedor social efetivo, pela a inovação pela experiência.

Para São Vicente, o “amor é inventivo ao infinito”.  A vivência com os pobres, através da virtude, nos faz ser criativos para servir, assim como Deus é conosco (sempre nos surpreende com um plano melhor do que o nosso). Para isso, devemos nos questionar sempre se não há uma forma mais inteligente de alcançar nossas metas, de empreender, de servir, de dar dignidade e liberdade ao Pobre. 


5. O zelo faz do cristão um empreendedor social efetivo, pela espera no tempo de Deus.

As prioridades divinas são baseadas na perfeição da sabedoria e a nossa percepção do tempo não necessariamente é a mais precisa e necessária. Deixemos que Deus decida sobre o melhor momento!

domingo, 13 de outubro de 2013


A virtude da MANSIDÃO segundo São Vicente de Paulo
(retirado do livro “Liderança Mística”, a ser publicado em novembro de 2013)

Para São Vicente de Paulo, a mansidão e gentileza (ou "douceur") é a capacidade de ser firme, mas controlar e gerenciar a raiva. Implica também em suportar ofensas com perdão e coragem.

Para ele, a mansidão deve ser motivada pela genuína vontade de imitar e servir a Cristo: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 23,1-12).

Vicente de Paulo inspirou algumas definições de mansidão na vida prática, as quais são apresentadas por Robert Maloney:

1. Mansidão representa a habilidade de tratar a raiva de forma positiva.

Como todas as emoções espontâneas, a raiva pode ser utilizada bem ou mal: concretamente, todas as pessoas têm dificuldade de tratá-la de forma efetiva.

Conforme indicava Vicente de Paulo, lidar bem com a raiva significa expressá-la de forma apropriada; ele mesmo teve que controlar seu próprio temperamento colérico, enfocando-o na reação às necessidades dos Pobres, com vigor e criatividade.

Também expressou raiva de forma simples, quando percebeu a existência do mal em suas comunidades, mas aprendeu a combinar a sua raiva com a sua gentileza, o sabor amargo com o doce: buscava imitar a Cristo que era ao mesmo tempo gentil e firme. De fato, Jesus sabia moderar seus momentos de frustração em relação aos apóstolos e expressou claramente sua raiva em relação aos fariseus em diversas ocasiões.

2. Mansidão significa proximidade e calor humano.

Estas são qualidades importantes, especialmente para os servidores dos Pobres. Neste aspecto, Vicente de Paulo nos encoraja a ser confiantes de que podemos mudar, citando sua própria experiência.

Os que o conheceram em sua idade madura indicaram que ele era uma pessoa que expressava enorme calor humano. Costumava dizer aos membros de suas comunidades que as pessoas são “ganhas” muito mais pela mansidão do que pela argumentação.

3. Mansidão significa a habilidade de tratar ofensas com perdão e coragem.

Vicente de Paulo baseava seus ensinamentos sobre este assunto no respeito aos outros como pessoas humanas: mesmo os que cometem injustiça merecem respeito.

Os escritos de João Paulo II reiteram esta máxima nos dias de hoje: o chamado a ter profunda reverência a todo o ser humano, mesmo que nos ofenda. Naturalmente, ter respeito pela pessoa do ofensor não nos proíbe de canalizar nossa raiva com coragem, contra o mal que o ofensor comete, mas deve nos guiar a não cometer injustiça em nome da injustiça. João XXIII dizia que “devemos odiar o pecado, mas amar o pecador”.

Vicente de Paulo reconhece claramente - e recordou a Philip LeVacher sobre o ensinamento de Santo Agostinho sobre este tema - que existem males que devem ser tolerados, uma vez que não há possibilidade de os corrigir. Assim, devemos aprender a viver com eles, tratando com respeito as pessoas que não conseguem se livrar deles: deixar que Deus os trate e os converta em benefícios.

4. Mansidão significa agir com coragem em nome da justiça e da paz.

João Paulo II expressa a dualidade dos meios da construção da paz em sua encíclica Centesimus Annus , dualidade que deve priorizar o desenvolvimento dos povos e eliminar toda a tentativa de guerra.

Ele diz: “Nunca mais a guerra. […] O outro nome da paz é o desenvolvimento. Como existe a responsabilidade coletiva de evitar a guerra, do mesmo modo há a responsabilidade coletiva de promover o desenvolvimento. Como a nível interno é possível e obrigatório construir uma economia social que oriente o funcionamento do mercado para o bem comum, assim é necessário que hajam intervenções adequadas a nível internacional. Por isso deve-se fazer um grande esforço de recíproca compreensão, de conhecimento e de sensibilização da consciência. É esta a cultura almejada que faz crescer a confiança nas potencialidades humanas do Pobre e, consequentemente, na sua capacidade de melhorar a sua condição através do trabalho, ou de dar uma contribuição positiva ao bem-estar econômico. Para fazê-lo, porém, o pobre — indivíduo ou Nação — tem necessidade de que lhe sejam oferecidas condições realisticamente acessíveis. Criar essas ocasiões é a tarefa de uma concertação mundial para o desenvolvimento, que implica inclusive o sacrifício das situações de lucro e de poder, usufruídas pelas economias mais desenvolvidas”.

Esta é uma possível missão para todo o cristão que tem uma responsabilidade pública ou privada na construção da paz.

domingo, 6 de outubro de 2013

A virtude da MORTIFICAÇÃO segundo São Vicente de Paulo


A virtude da MORTIFICAÇÃO segundo São Vicente de Paulo

(retirado do livro “Liderança Mística”, a ser publicado em novembro de 2013)

 

Para São Vicente de Paulo, a mortificação significa controlar os sentidos, as paixões e as emoções, não permitindo que elas prejudiquem o alcance racional de nossa missão no mundo. Em certo sentido, significa manter-se enfocado nos resultados e decidir de acordo com a razão.

 

A mortificação, portanto, traduz-se na prática da “desconexão” de si mesmo para bem compreender a vontade de Deus, através da contemplação na ação, ou seja, a escuta do plano de Deus, através dos fatos da vida.  Para isso, é necessária a mortificação aos pré-conceitos e aos interesses pessoais: é como “despir-se do homem velho, para revestir-se do homem novo” (Cl 3, 9-10).

 

Vicente de Paulo dá também a perspectiva à mortificação como “desconexão do mundo”, mas em nome de Cristo: “Senhores, mantenhamos este exemplo diante de nossos olhos. Nunca percamos de vista a mortificação de nosso Senhor, considerando que, para segui-lo, somos obrigados a mortificar a nós mesmos. Modelemos nossas afeições às Suas: que os seus passos sejam os guias para os nossos, no caminho da perfeição. Os santos são santos porque caminham em seus passos, renunciam-se a si mesmos e mortificam-se em todas as coisas” .

 

Em outras palavras, quando fazemos silêncio como resposta a uma provocação maledicente, quando não damos valor excessivo às coisas materiais, quando negamos os sentidos interiores e exteriores ou as paixões da alma, o fazemos por causa de Cristo.

De fato, como São Vicente de Paulo ensinou às Filhas da Caridade, mortificação e oração caminham juntas: “Oração e mortificação são duas irmãs que são tão unidas que uma nunca será encontrada sem a outra. A mortificação vai primeiro e a oração a segue, de forma que, minhas caras irmãs, se vocês desejam se tornar filhas da oração, como deveriam, aprendam a mortificarem a si mesmas”.

 

Mortificação não é autoflagelação. A mortificação é uma expressão da vontade sana de desconexão do mundo e dos prazeres, para refletir e agir de forma mais produtiva e enfocada. A autoflagelação pode ser uma busca insana de oportunidades para sofrer e mostrar a nós mesmos - e aos outros - que estamos sofrendo.

 

O Pe. Robert Maloney CM, ex-superior geral da Congregação da Missão, propõe algumas formas práticas para exercitar a mortificação:

 

1. Equilibrar nossos valores - fazer escolhas.

Isto significa renunciar uma coisa para fazer ou ter outra melhor. Por exemplo, renunciar ao excesso de bebida, para o benefício da saúde espiritual, mental e física.

 

2. Estar pronto(a) para responder à vontade de Deus, particularmente, aceitando tarefas difíceis.

Frequentemente, responder a desafios faz-nos descobrir capacidades e recursos que temos e que nunca nos tínhamos dado conta, sendo, portanto, uma prática saudável para a nossa maturação.

 

3. Trabalhar arduamente e dedicar tempo generosamente, como bons servidores fazem.

Por exemplo, aceitando afazeres simples para o bem comum, ou usando nosso tempo de forma generosa, para servir aos outros.

 

4. Acordar cedo para rezar.

É importante rezar de forma disciplinada, estabelecer um tempo específico para a oração diariamente e criar o hábito da meditação.

 

5. Ser resiliente. Ou seja, enfocar nas metas estabelecidas com disciplina.

Aceitar frustrações conosco mesmos, quando não somos capazes de fazer as coisas como planejamos.  Michelangelo fez inúmeras tentativas não utilizadas da Pietá, antes de finalizar a famosa escultura, como conhecemos hoje.

Aceitar frustrações com os outros - como, por exemplo, oposição ou não reconhecimento.  

 

6. Ser fiel às responsabilidades quando conflitam com o prazer.

Optar pelas atividades relacionadas às responsabilidades de nossa situação profissional, social ou familiar, no lugar de coisas que levam a retornos imediatos do lazer, pode ser uma vivência de mortificação, especialmente no mundo em que vivemos hoje, que privilegia o prazer a todo o custo.

 

7. Ser restrito na aquisição ou aceitação de bens materiais.

Ter um estilo de vida simples, sem exageros na busca de roupas, dinheiro ou outros bens materiais, mas possuí-los sem ser “escravos” deles é viver a mortificação.   Como diz São Paulo: “os que choram, como se não chorassem; os que se alegram, como se não se alegrassem; os que compram, como se não possuíssem; os que usam deste mundo, como se dele não usassem. Porque a figura deste mundo passa” (1 Cor 7,29-31).

 

8. Não dar valor a privilégios especiais.

Manter-se no limite do que é normal e fora das exceções é uma virtude que demonstra elevada autoestima.

 

9. Evitar palavras de crítica destrutiva ou que gerem divisões entre pessoas de nosso ambiente.

Este hábito pode ser uma tremenda ajuda não só ao nosso crescimento dentro da mortificação, como também à caridade. São Bento dizia que o murmúrio era o grande vício dos mosteiros. Vicente de Paulo percebia o mesmo perigo.

É uma norma saudável conter críticas, a menos que elas possam ser proferidas de forma positiva, dentro da simplicidade vicentina, aos que as podem utilizar para seu próprio desenvolvimento como pessoas.

 

10. Dar atenção aos que necessitam dela.

Normalmente, buscamos estar com quem tem poder, gloria ou dinheiro: estas pessoas são mais interessantes e estão sempre na moda. Dedicar tempo àquelas pessoas que nos dão menos prazer porque são marginalizadas em nossos ambientes de trabalho e lazer é uma prática da caridade e da mortificação.

domingo, 29 de setembro de 2013

A virtude da HUMILDADE segundo São Vicente de Paulo

A virtude da HUMILDADE segundo São Vicente de Paulo (retirado do livro “Liderança Mística”, a ser publicado em novembro de 2013)

Para São Vicente de Paulo, a humildade é o reconhecimento de que tudo de bom que temos vem de Deus.

Ele escreve para Firmin Get, em 08 de março de 1658: «Não digamos mais: fui eu que fiz este bom trabalho, porque toda a boa ação deve ser feita em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo (...). Guarde bem, para que não atribua nada a você mesmo. Se o fizer, você estará cometendo furto e estará injuriando a Deus, quem, por Si mesmo, é o autor de todas as boas obras”.

Para a pessoa virtuosa, humildade significa a boa vontade para aceitar que os resultados e o impacto alcançados com nossos planos e nosso suor vêm de Deus e do trabalho compartilhado com outras pessoas.

A humildade é mais bem expressada pelo nosso ciclo de vida. Já no momento de nosso nascimento, cada um individualmente, é uma obra maravilhosa de Deus (Ecl 17,1-5). Criando-nos à Sua imagem, Deus nos dá a capacidade de decidir, agir, corrigir e converter-se, possuindo um corpo e uma mente repletos de capacidades e potencialidades. Ao mesmo tempo em que Deus nos dá o dom excepcional da vida, dá-nos o livre arbítrio (Ecl 17,5-6), tornando-nos capazes de tudo, inclusive do poder sobre a natureza e os outros.

Por outro lado, também nos indica que “somos pó e ao pó retornaremos” (Gn 3,19). Para nós cristãos, a morte é uma obra ainda mais maravilhosa: porque é o encontro definitivo com Deus, depois do cumprimento de nossa missão.

A maravilha da criação e da morte se apoia no pressuposto da humildade. Se nascemos, é porque Deus nos deu o dom da vida; se morremos, é por meio Dele que morremos. O pressuposto divino é que, durante nossa vida, queiramos ser humildes, decidindo sempre por Deus, em nossas escolhas (Ecl 17,7-13).

Para completar a obra e apoiar nossa decisão e o arbítrio por Deus, Ele nos deixa o dom maior da encarnação de Seu filho, estabelecendo o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6): quem é livre caminhando com Deus, decidindo de acordo com Seu verbo e vivendo a Sua vida é humilde e, portanto, tem a vida Nele.

Quando Vicente de Paulo enfatizava a humildade, penetrava na verdade básica e profunda do Novo Testamento. O Evangelho de São Lucas, em particular, nos diz que Deus se dirige aos menores, aos Pobres de Israel, àqueles que reconhecem que necessitam Dele e esperam Nele. Neste sentido, a humildade é o fundamento de toda a perfeição evangélica, o ponto principal de toda a vida espiritual. Vicente de Paulo foi à profundeza dos evangelhos, quando disse que “a humildade é a origem de todo o bem que fazemos”.

Humildade não significa passividade, mas, ao contrário, é ser proativo e ter autoestima suficiente para aceitar que somos iluminados por Deus, uma vez que somos seus filhos, logo, podemos tudo.

O Pe. Robert Maloney, CM (ex-superior geral da Congregação da Missão) propõe algumas formas práticas de se reconhecer a humildade em um líder místico:

1. Humildade é a gratidão pelos dons.
A pessoa que recebe tudo deve se colocar diante de Deus em espírito de agradecimento.
 
2. Humildade significa uma atitude de servo.  
Esta atitude é central no Novo Testamento, especialmente para aqueles que exercitam a autoridade. No Evangelho de João, Jesus a demonstra a seus discípulos através da passagem do lava-pés. São Vicente de Paulo iniciava as cartas aos membros da Congregação da Missão que fundou, com a citação: “Vicente de Paulo, indigníssimo superior da Congregação da Missão”.

3. Humildade é a prática voluntária do “auto esvaziamento”.
Significa maximizar a dedicação à busca do alcance da Visão e entregá-la a Deus: Ele nos dá a capacidade para alcançar os objetivos. São Vicente de Paulo disse uma vez: “Creiam-me, senhores padres e irmãos meus, há uma máxima infalível de Jesus Cristo que frequentemente lhes é anunciada de sua parte: tão logo um coração se esvazia de si mesmo, Deus o enche; é Deus quem nele permanece, quem Nele age. É o desejo de ser desprezados que nos esvazia de nós mesmos”.

4. Humildade se traduz no sentimento de paz por nos colocarmos nas mãos de Deus.
Há coisas que não podemos controlar. Talvez a maioria delas. Por exemplo, não podemos controlar a ação do demônio, o mal que nos fazem de muitas maneiras. Não podemos mesmo, na maioria das vezes, controlar a tentação do demônio. Frequentemente, fazemos o mal sem querer fazê-lo, pecamos sem querer pecar, porque não conseguimos nos controlar, mesmo sabendo que é pecado. Não podemos controlar nossa falta de capacidade para entender ou resolver problemas; verificamos que muitos são mais competentes que nós. Podemos ser mais esforçados que os outros, “mais inteligentes” e, com isso, superar nossas incapacidades, mas não eliminá-las – aliás, aceitá-las é uma expressão concreta de humildade. Não conseguimos eliminar nossos vícios: tantos de nós sofrem de alcoolismo, por exemplo, um mal congênito que nos corroi e nos impede de avançar. Ao nos colocarmos nas mãos de Deus, temos a confiança de que Ele pode fazer o que não somos capazes de completar.
 
5. Humildade significa ser flexível.  
A pessoa virtuosa deve, muitas vezes, voltar atrás, e “lançar a rede do outro lado da barca” (Jo 21,6), para atingir a Visão, quando sente que é vontade de Deus que o faça. Isto não significa que devamos mudar todo o tempo de opinião, nem tampouco mudar nossos planos, mas sim, que sejamos criativos para chegar ao caminho mais efetivo, à forma mais inteligente de atingi-los. A humildade é, portanto, uma expressão de um dos traços mais importantes de São Vicente de Paulo: a inovação.

6. Humildade significa mostrar estima pelos outros.
Dependemos dos outros e os outros dependem de nós, logo devemos permitir-nos ser ensinados, ajudados e iluminados pelos outros.

7. Humildade significa deixar que sejamos evangelizados pelos Pobres: afinal, eles são nossos grandes mestres.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Significado do quadro The Beggar (O Mendicante) de Meltem Aktas


Descrição do quadro “O Mendicante” do inglês “The Beggar”

(Retirado do livro “Liderança Mística”, a ser publicado em Novembro de 2013) 

Pintado pela grande artista turca Meltem Aktas, o ícone celebra a Encarnação do Filho do Homem, elemento central à espiritualidade de São Vicente de Paulo. Apresenta também outro elemento desta espiritualidade: a interação entre um Vicente idoso e um homem pobre que se parece com o Jesus palestino e está em um movimento oval. Vemos Jesus no mendicante e a nossa transformação ao interagir com Ele; observa-se que Vicente de Paulo também se põe no mesmo movimento oval.

Conhecendo nossa própria pobreza, assumimos a posição do homem pobre e, com ele, olhamos atentamente para Vicente de Paulo. Os olhos de Vicente se focam no pão. Provavelmente, Vicente de Paulo é quem dá o pão ao mendicante, mas, olhando para as mãos, é difícil saber se é assim ou se é o contrário: se é Vicente de Paulo que recebe o pão. Aqui reside outra verdade da espiritualidade Vicentina: uma vez que encontramos Jesus no Pobre, ele tem tanto a nos dar quanto o que nós temos para lhe dar, ou mais. 

Uma transformação ocorreu: a pessoa do homem pobre se transforma em Jesus e nós nos tornamos Vicente de Paulo, recebendo do assistido tanto quanto nós mesmos doamos.

O mendicante tem uma mão deformada; o pé de Vicente de Paulo está em uma posição estranhamente paralela à mão do mendigo, sugerindo uma relação de intimidade entre Vicente de Paulo e o mendicante.

O mesmo se demonstra na simetria das roupas dos dois. Vicente de Paulo se coloca em uma posição de escuta; ele experimenta algo de sua própria fraqueza e pobreza, reconhecendo-as ao entrar no mundo do assistido, com sua doação e sua escuta.  Uma nova transformação: ao entrar na intimidade do Pobre, com nossa riqueza, encontramos a nossa própria pobreza. Como Vicente de Paulo costumava dizer: “É somente por causa de seu amor, somente seu amor, que o Pobre o perdoará pelo pão que você dá a ele”.

O partilhar do pão evoca o tema eucarístico do ícone: Jesus, o homem pobre, nos oferece o pão da verdade. 

As pedras do fundo relembram a passagem da tentação de Jesus do evangelho de Lucas.  O demônio disse a Jesus: “Se és efetivamente Deus, ordena a estas pedras que se transformem em pães”. A resposta de Jesus foi: “Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”. O pão e a palavra que Jesus, o homem pobre, dá a Vicente de Paulo são mais do que o pão material.  A espiritualidade vicentina nos leva a sair de nossas necessidades físicas para compartilhar a boa-nova da salvação em Jesus, o verdadeiro pão descido do céu.

A árvore verde à esquerda, junto ao homem pobre, lembra-nos a revelação de Jesus, como a vinha e nós como os ramos: uma outra referência sacramental.

Finalmente, o ícone nos apresenta três planos horizontais: o inferior, com as pedras onde estão Vicente de Paulo e o homem pobre; acima deste, o plano intermediário, com a representação da Casa-Mãe da Congregação da Missão em Paris - Hospital Saint Lazare, construído por Vicente de Paulo; e o superior, representando o céu em forma de nuvens.  É, portanto, o mistério da encarnação do Filho do Homem se traduzindo na criação institucional de Vicente de Paulo - fundador ou inspirador de centenas de organizações sociais - e no seu carisma - o partir o pão com o Cristo presente no Pobre.  Este encontro, de elevada intimidade e de transformação pessoal, é a base de toda a missão e visão transformadoras do Vicente de Paulo empreendedor social e de seus seguidores. O mistério Daquele explica o sucesso e o impacto destas.

domingo, 22 de setembro de 2013


Pequena Biografia de São Vicente de Paulo

Vicente de Paulo foi um francês que nasceu em 1581 na zona rural, numa família pobre, não miserável; foi batizado, viveu no meio de seus irmãos, trabalhou como pastor, estudou, ordenou-se Padre.  Inicialmente, teve um plano bem humano: mediante o sacerdócio, queria triunfar na vida.  Foi por isso que, provinciano, inteligente e ambicioso, subiu a Paris.  Era em Paris que Deus o esperava.

Vicente, por temperamento, era homem de ação, prático.  Chegou a ter um projeto: prolongar a Missão de Cristo, reproduzindo o estilo de vida missionária e fazer das virtudes que procurava praticar, meios para melhor evangelizar e servir os pobres.

Deus lhe falou e se lhe revelou no acontecimento.  Dando respostas a acontecimentos é que fundou a Congregação da Missão e a Confraria das Senhoras da Caridade; mais tarde, ainda através de acontecimentos, foi empreendendo, criando a fundação da Companhia das Filhas da Caridade, os Retiros dos Eclesiásticos, das Conferências das Terças-feiras, os Seminários, a Obra das Crianças Abandonadas etc.

Passava longas horas em oração (não é esta uma dimensão de S. Vicente que, por vezes esquecemos?).  Mas, rezando, não se perdia em considerações.  Chegava logo a resoluções concretas para o dia; mergulhava logo na vida.

Vicente começou a querer só uma coisa: imitar Jesus Cristo evangelizador, torná-lo para si, regra de conduta e ação.  Para isso, amou-O no pobre.  O Pobre para S. Vicente é Jesus Cristo hoje.  “Servindo o Pobre, serve-se a Jesus Cristo... Servis Jesus Cristo na pessoa dos pobres.  Isso é tão verdade como estarmos aqui”, ensinava às Filhas da Caridade.

Este homem que viveu quase 80 anos - 30 a mais que a maioria dos seus contemporâneos - era baixo: media 1m59cm.  Possuía uma forte musculatura e sofria e gozava, ao mesmo tempo de um temperamento sanguíneo e bilioso, sempre pronto a se manifestar.  Por isso, ensinou a mansidão como uma das cinco virtudes vicentinas.

Sua resistência ao cansaço era incrível.  Percorria quilômetros e quilômetros, a rédea solta... Não foi imune às enfermidades e violência da aventura humana: por exemplo, aos 25 anos recebeu uma flechada cuja ferida o fez sofrer durante muito tempo; certa vez, recebeu um forte coice de cavalo que quase o matou.  Apesar de todas as dificuldades físicas que a vida lhe impôs (queda de cavalo, febre constante, doença crônica nas pernas) nunca deixava de evangelizar, de pregar, de servir intima e diretamente ao Pobre.  Era um verdadeiro líder servidor e místico.

Em 1660, a 27 de Setembro, Vicente de Paulo morreu, rodeado de seus Padres e Irmãos, sentado numa cadeira de braços, após dizer pela última vez, o nome de seu grande amor: Jesus.

O único objetivo de Vicente - homem que lutou, sofreu, rezou, vibrou, amou, serviu - foi aplicar-se a fazer de sua vida um dom total a Deus: dom a Deus que se tornou concreto na evangelização e no serviço corporal e espiritual a Cristo-pobre, a Cristo nos pobres e aos pobres em Cristo.  Esses pobres eram verdadeiramente, para eles, seus senhores!

segunda-feira, 16 de setembro de 2013


Descrição da Virtude Vicentina da SIMPLICIDADE

Para São Vicente, a simplicidade significa falar, buscar e praticar a verdade.

Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade e a verdade vos livrará” (Jo 8, 31-32).

Simplicidade significa resistir à tentação da corrupção, difamação dos outros ou qualquer coisa que envolva a mentira.

O Pe. Robert Maloney CM, ex-superior geral da Congregação da Missão, propõe algumas formas práticas de simplicidade, em sua palestra “As Cinco Virtudes Vicentinas”, feita aos ramos da Família Vicentina, em Roma, março de 2008:

1. Falar a verdade

Falar a verdade com consistência é uma disciplina extremamente difícil. Muitas vezes é mais fácil não dizer a verdade - ou postergar a verdade - do que enfrentar uma situação incômoda que ela pode causar.

A pessoa simples sabe como dizer a verdade, com respeito e ternura.  Somos tentados a confundir a verdade, quando nossa própria conveniência está em jogo ou quando ela nos embaraça pessoalmente.

É igualmente difícil ser verdadeiro, quando damos nossa palavra, fazemos uma promessa ou firmamos um compromisso. Quando falamos algo hoje, ele é verdadeiro ou falso hoje. Quando nos comprometemos com algo no futuro, entretanto, ele é verdadeiro somente na medida em que nós o mantemos verdadeiro.

A verdade, neste caso é o mesmo que fidelidade. É neste sentido que Jesus é verdadeiro conosco: Ele promete ser fiel a nós e o é, efetivamente, até o fim. 

2. Testemunhar a verdade

Dar o testemunho da verdade é uma virtude central para a vida cristã, especialmente segundo o Evangelho de São João: Jesus é a verdade (Jo 14,6). Quem age na verdade, permanece na luz (Jo 3,21). Quando vier o Espírito, Ele nos guiará no sentido da verdade plena (Jo 16,13). Testemunhar a verdade não é apenas ser honesto, mas evangelizar, indicando que Deus é a essência da verdade.

3. Buscar a verdade

Bernard Häring chama esta busca de “a dedicação à verdade”, o que significa aprendê-la sempre, através da escuta, da interação com os outros, da leitura, da busca pela educação e pela cultura.

São Vicente de Paulo buscava a verdade nas experiências comuns da vida, na visita ao Pobre, na conversa com evangelizadores, em uma conferencia ou discurso, ou mesmo em eventos tristes - como a perda de alguém, um desastre ou uma situação de perigo. A verdade se faz clara também em nossas orações, se deixamos que o Espírito Santo a mostre para nós, e se a tornarmos uma ação concreta em nossa vida.

4. Estar na verdade

Isto é o que comumente chamamos de simplicidade de intenção, pureza de coração ou referência de tudo a Deus. Jesus buscava sempre saber a vontade do Pai e lutava contra desejos contrários, quando resolvia realizá-la.

Devemos fazer o mesmo no dia-a-dia. O conforto, o poder, a glória e a riqueza competem com o amor a Deus e ao próximo. Algumas vezes eles se confundem com a verdade, porque são motivos de expressões de aceitação e mesmo de admiração dos outros, se os temos. 

5. Praticar a verdade

Isto significa realizar obras de justiça e caridade, fazendo com que a verdade seja criativamente viva em nosso mundo. Significa fazer com que nossas palavras e ações deem vida ao Evangelho. A verdade não pode ser puramente verbal: tem que ser praticada.

6. Viver a verdade de forma integral

Um cristão autêntico deve ser consistente com a verdade, em todas as circunstâncias, como “uma só alma”. É difícil conceber que um cristão que professe a verdade evangélica na Igreja, possa se deixar envolver de forma contínua por pecados como a corrupção no trabalho, ou como a infidelidade na vida em família, ou como o julgamento maledicente na vida social. Podemos pecar eventualmente, mas buscar consistentemente a conversão, através do arrependimento e do intúito de não pecar mais.

A simplicidade é uma virtude extremamente difícil de se exercitar em um mundo que valoriza nossa aceitação a qualquer preço pelo meio em que vivemos, em detrimento de nossas virtudes. A avaliação das pessoas sobre nós mesmos sempre está ligada à nossa capacidade de falar e agir conforme a “massa”, e esta, por natureza, busca o consumo, a glória e o poder.

Se o cristão virtuoso não se distanciar das demandas da massa, dificilmente poderá viver segundo a virtude.


A forma mais eficaz para o cristão de se manter na simplicidade é confiar tudo a Deus e não aos homens, sejam os momentos de tristeza ou os de glória, seja o fracasso ou o sucesso, seja a riqueza ou as dificuldades financeiras: o equilíbrio estável da vida, na verdade, depende de nos voltarmos para dentro de nós mesmos e não para fora, só assim somos verdadeiramente livres.