sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Homilia do Papa Francisco sobre ser cristãos e pertencer à Igreja


Homilia do Papa Francisco sobre ser cristãos e pertencer à Igreja

(30 de janeiro de 2014)
           
A homilia do Papa na Missa desta quinta-feira na Casa de Santa Marta partiu da figura do rei David que nos é apresentada pelas leituras do dia como um homem que fala com o Senhor que fala com o Pai e, mesmo quando recebe um não, aceita-o com alegria. David tinha um sentimento forte de pertença ao Povo de Deus – afirmou o Papa Francisco – e esta sua atitude faz-nos pensar sobre o nosso sentido de pertencimento à Igreja, o nosso sentir com a Igreja e na Igreja – considerou o Santo Padre:

“O cristão não é um batizado que recebe o Batismo e depois segue o seu caminho. O primeiro fruto do Batismo é fazer-te pertencer à Igreja, ao Povo de Deus. Não se entende um cristão sem Igreja. E por isto o grande Paulo VI diz que é uma dicotomia absurda amar Cristo sem a Igreja; escutar Jesus mas não a Igreja. Não se pode. É uma dicotomia absurda.”

Segundo o Papa Francisco há três pilares de pertencimento à Igreja, de sentir-se Igreja. São eles a humildade, a fidelidade e a oração pela Igreja. Referiu-se em primeiro lugar à humildade, considerando que cada um de nós é uma pequena parte de um grande povo. Depois a fidelidade à Igreja como vínculo aos seus ensinamentos. Finalmente, abordou o pilar da oração pela Igreja:

“Uma pessoa que não é humilde, não pode sentir com a Igreja, sentirá aquilo que lhe agrada. E esta humildade que se vê em David: ‘ Quem sou eu, Senhor Deus, e que coisa é a minha casa?’. Com aquela consciência que a história da salvação não começou comigo e não terminará quando eu morro. Não, é toda uma história da salvação: eu venho, o Senhor pega em ti, faz-te andar para a frente e depois chama-te e a história continua. A história da Igreja começou antes de nós e continuará depois de nós. Humildade: somos uma pequena parte de um grande povo, que vai pelo caminho do Senhor.”

“Fidelidade à Igreja; fidelidade ao seu ensinamento; fidelidade ao Credo; fidelidade à doutrina, conservar esta doutrina. Humildade e fidelidade. Também Paulo VI nos recordava que nós recebemos a mensagem do Evangelho como um dom e devemos transmiti-lo como um dom, mas não como uma coisa nossa: é um dom recebido que damos. E nesta transmissão ser fieis. Porque nós recebemos e devemos dar um Evangelho que não é nosso, que é de Jesus e não devemos – dizia ele – ser donos do Evangelho, donos da doutrina recebida, para utiliza-la ao nosso prazer.”

O Papa Francisco terminou a sua meditação desta manhã afirmando que o terceiro pilar do sentimento de pertença à Igreja é a oração pela Igreja. Desta forma, o Santo Padre exortou os cristãos a rezarem pela Igreja presente em todas as partes do mundo e pediu ao Senhor que nos ajude a ir por este caminho para aprofundarmos o nosso pertencimento e o nosso sentir com a Igreja.
Fonte: www.news.va/pt/sites/homilias

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Homilia do Papa Francisco sobre o DIALOGO (24/01/2014)


Homilia do Papa Francisco sobre o DIALOGO (24/01/2014, capela da Casa de Santa Marta)


O diálogo constrói-se com a humildade, até à custa de «engolir muitos sapos», porque não podemos deixar que no nosso coração se ergam «muros» de ressentimento e ódio.

Para a homilia inspirou-se no trecho do primeiro livro de Samuel (24, 3-21), que narra o confronto entre Saul e David. «Ontem – recordou o Papa – ouvimos a palavra de Deus que nos fazia ver o que o ciúme e a inveja causam nas famílias, nas comunidades cristãs». São atitudes negativas que sempre «levam a contendas e divisões. Inclusive ao ódio». E «vimos isto no coração de Saul contra David: ele sentia ciúme» a tal ponto «que queria matá-lo».

Mas «hoje – prosseguiu – a palavra de Deus faz-nos ver outro comportamento: o de David», o qual «sabia muito bem que corria perigo; sabia que o rei queria matá-lo». E encontrou-se numa situação em que poderia matar o rei e acabar a história». No entanto, «escolheu outro caminho»; preferindo «o caminho da aproximação, do esclarecimento da situação, da explicação. O caminho do diálogo para fazer as pazes».

Ao contrário, o rei Saul «ruminava estas amarguras no seu coração», insultava David «porque acreditava que era seu inimigo. E isto aumentava no seu coração». Infelizmente, afirmou o Papa, «estas imaginações crescem sempre quando as ouvimos dentro de nós. E erguem um muro que nos afasta da outra pessoa». Deste modo acabamos por permanecer «isolados no caldo amargo dos nossos ressentimentos».

Eis que David, «com a inspiração do Senhor», interrompe este mecanismo de ódio «e diz: não, eu quero dialogar contigo!». E assim, explicou o Pontífice, «começa o caminho da paz. Com o diálogo». Contudo, advertiu, «dialogar não é fácil», mas somente «com o diálogo podemos construir pontes de relação e não muros que nos afastam». E frisou – «para dialogar é necessária a humildade». O exemplo de David demonstra-o.

Depois, o Papa afirmou que a base do diálogo é formada por três elementos: humildade, mansidão e fazer-se tudo para todos. Depois, sugeriu um conselho prático: para iniciar o diálogo «é necessário não deixar passar muito tempo». De fato, os problemas devem ser enfrentados «o mais rápido possível, assim que a tempestade passar». É preciso «aproximar-se imediatamente do diálogo porque o tempo faz crescer o muro».

E, concluiu, pedindo a intervenção de «são Francisco de Sales, doutor da doçura», que nos conceda «a graça de construir pontes com os outros, jamais muros».

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Ozanam: uma vida consistente de Liderança Mística


Ozanam: uma vida consistente de Liderança Mística

Retirado do Livro “Liderança Mística”
                                                                Confrade Eduardo Marques

 

Liderança Mística pode ser definida como: "o processo de persuasão ou exemplo em que, movido por um conjunto de virtudes, um indivíduo - ou um grupo - induz uma audiência a servir uma Visão e uma Missão comuns que acreditam ser resultado do plano de Deus para eles".

Para o líder místico, há dois conjuntos de virtudes fundamentais: as virtudes cardeais - prudência, justiça, temperança e fortaleza - e as teologais - fé, esperança e caridade.

O líder vicentino pode ser definido como um líder místico com o carisma de São Vicente de Paulo e de seus seguidores, ou seja, possui duas particularidades.  Primeiramente, assume para si a missão do serviço direto e pessoal ao Pobre.  Em segundo lugar, o seu “combustível” é o conjunto de virtudes chamadas “vicentinas” - simplicidade, humildade, mortificação, mansidão e zelo – além das virtudes cardeais e teologais. 

Frederico Ozanam que, além de ser fundador da Sociedade de São Vicente de Paulo, foi um famoso sociólogo e filósofo do século XIX, é um bom exemplo desta definição e do seguimento das cinco virtudes vicentinas. 

Primeiro, Frederico Ozanam, era um intelectual com uma Missão muito clara: convencer as pessoas a seguir o Evangelho. Uma de suas principais qualidades era a busca da verdade e do uso de sua profissão para espalhá-la por todos os lugares aonde ia (a virtude da simplicidade de São Vicente de Paulo). Ele falou em nome dos Pobres e da Igreja, e gerou várias mudanças sociais no âmbito global. Por exemplo, ele criou as "Conferências de História", que reunia jovens intelectuais da França em sua época (1830) para discutir a necessidade de transformações sociais e para defender a Igreja.  Seu trabalho acadêmico gerou algumas das mais importantes políticas sociais dos nossos dias, bem como, contribuiu para a famosa encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII.

Segundo, Frederico Ozanam tinha uma Visão: envolver o mundo inteiro em uma rede de caridade. Sua motivação era transformar corações, por meio do serviço direto e íntimo aos Pobres. As suas “Conferências de História” se transformaram nas "Conferências de Caridade", que mais tarde passaram a se chamar “Conferências de São Vicente de Paulo”, levando à gênese da atual Sociedade de São Vicente de Paulo, um grande sucesso empreendedor, com suas centenas de milhares de membros em uma centena e meia de países.  Importante definir, as Conferências são pequenos grupos de voluntários - amigos na ação e na oração -, que em busca de sua santidade, visitam frequentemente os assistidos em seu domicílio, empenhados em dar-lhes dignidade. Esta definição é importante, para que não nos esqueçamos de suas origens, do espírito primitivo.   Ozanam se dedicava de corpo e alma a divulgar este fogo: a vocação da transformação do coração, ou seja, da santificação, através do serviço ao pobre.  Era incansável: um exemplo da virtude do zelo.

Em terceiro lugar, Frederico Ozanam era humilde.  Era um homem de oração e intimidade com Deus: apresentava todos as enormes qualidades que tinha, como dons de Deus.  Um exemplo de sua humilde espiritualidade é o fato de que rezava sempre antes de cada aula ministrada na Sorbonne: tudo era oferecido como louvor a Deus, nunca como seu mérito pessoal.

Em quarto lugar, apesar de ser um intelectual brilhante, nunca se mostrava arrogante, mas, ao contrário, expressava mansidão em suas aulas, suas cartas, seus poemas.  Ao receber a provocação do jovem sansimoniano*, que perguntou o que os membros das Conferencias de História faziam de prático sobre o que pregavam, Ozanam poderia ter respondido com ira, “colocando o provocador no seu devido lugar”, como se diz coloquialmente.  Ao invés disso, assumiu mansamente a provocação como uma mensagem divina da correção do rumo das Conferencias de Historia e lançou a famosa frase: “vamos aos pobres”.  Uma provocação reagida com mansidão pode se transformar em um milagre da formação de um exército de servidores dos pobres. 

Finalmente, a virtude da mortificação.  Existe no museu Ozanam em Paris, um quadro com a decoração da casa da família Ozanam: um exemplo de indiferença aos bens materiais.  Um professor catedrático da Sorbonne, com poucos móveis simples, em uma casa pequena.  Ozanam era um exemplo do que São Paulo chamava de "despir-se do homem velho, para se revestir do homem novo" (Cl 3, 9-10).

Existem algumas discussões sobre a justa dedicação da fundação da Sociedade de São Vicente de Paulo.  A família de Bailly, o primeiro presidente da Conferencia, por exemplo, até hoje, questiona a razão da beatificação de Ozanam, como o único fundador. 

É necessário colocar a betificação de Ozanam em perspectiva.  Sim, é verdade que ela se deve em muito à fundação da Sociedade de São Vicente de Paulo que, inclusive, em si mesma, seria um milagre.  Mas a beatificação de Ozanam é um resultado de ser ele um modelo de um filho de Deus que se fez santo por ser consistente: ele realmente vivia o que pregava e seguia o plano que achava ser definido por Deus para ele. Frederico Ozanam aprendia de seu serviço ao Pobre e daí projetou suas políticas sociais transformadoras, em sua atividade de filósofo, sociólogo e professor.  De fato, quando foi candidato a deputado, em 1848, em sua campanha, inovou com a proposta de um sistema fiscal que pudesse distribuir a renda (fórmula utilizada nos dias de hoje).  De seus momentos de oração e contemplação, retirava o enorme valor que dava à sua família, aos seus amigos, aos membros da Sociedade de São Vicente de Paulo.  Sua relação com Deus fazia com que seus sofrimentos pudessem servir de evangelização aos outros, como se apresenta em seu famoso “Livro dos Enfermos”, publicado faz pouco tempo pelo Conselho Geral Internacional da SSVP. 

Não podemos dissociar o professor Ozanam, empreendedor social e formulador de políticas sociais, do Frederico que visitava os assistidos e o Santíssimo Sacramento no altar. Esta consistência da mente e do espírito é o que é exigido de um líder místico.

O mundo está impregnado do que o Papa Benedito XVI chamou da “ditadura do relativismo”: tudo é relativo, tudo se pode, a ética é uma questão de interpretação.  Imagine se cada um de nós, vicentinos, pudermos maximizar a consistência de Ozanam em nossas vidas, em nosso dia-a-dia, evangelizando através do exemplo, defendendo a verdade única que aprendemos da relação com Deus e com o que empreendemos junto aos nossos próximos, em especial aos Pobres!  Se formos, cada um, um líder místico, como Ozanam foi, estaremos dando uma enorme contribuição à formação do verdadeiro Reino de Deus.

* Sansimonianos eram os seguidores de Claude-Henri de Rouvroy, Conde de Saint-Simon (Paris, 17/10/1760 a 19/05/1825), que foi precursor da «fisiologia social», também chamada da «física social», e rebatizada por Auguste Comte como sociologia.  Eram ateus.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Servindo aos Liderados!


Servindo aos Liderados!

Retirado do livro: “A Mística da Visita aos Pobres”, Conf. Carlos Henrique David, Coleção Vicentina, #38

 

Em todas as organizações modernas, espera-se que o líder tenha uma postura de serviço e não de autoridade. Esta exigência deve ser redobrada na Sociedade de São Vicente de Paulo.

Em muitas oportunidades da minha vida vicentina me faço uma pergunta: qual seria a análise que Frederico Ozanam e seus amigos fariam da Sociedade de São Vicente de Paulo nos dias de hoje?

A grande Rede de Caridade sonhada por ele hoje é realidade. Cresceu, multiplicou-se, renovou-se sem perder seu Espírito Primitivo. Quando imaginamos que a Sociedade de São Vicente de Paulo teve início com sete pessoas e hoje conta com mais de 600 mil membros, imaginamos que o próprio confrade Frederico Ozanam sentiria que foi necessário criar uma maior e melhor estrutura para manter esta Rede de Caridade unida, organizada e fiel a seus princípios.

Na Sociedade de São Vicente de Paulo, no Brasil, o crescimento foi maior que em qualquer outro País e isto fez com que construíssemos uma estrutura organizacional própria e única no mundo todo. Administrar e coordenar cerca de 250 mil membros, 17 mil Conferências, cerca de 2.500 Conselhos e mais de 1.200 Obras Unidas não seria tão simples como orientar um trabalho com sete pessoas conforme o início da Sociedade de São Vicente de Paulo. Mas temos que ter sempre uma questão em nossas mentes: todo este crescimento, de pessoas e estrutura, não muda a função dos Líderes na Sociedade de São Vicente de Paulo.

Todos aqueles que são chamados e dão o seu sim para presidir ou colaborar na diretoria de uma Unidade Vicentina assumem com isto uma grande e nobre missão. Além de continuar com seu trabalho caritativo na Conferência e o que é o mais importante de toda a nossa missão, assumimos um compromisso de coordenar, animar e promover o trabalho da Sociedade de São Vicente de Paulo.

 

Liderança nos dias de hoje

 

Não tenho a intenção em ocupar muito espaço para falar sobre esse tema, a liderança. Farei apenas algumas considerações próprias à Sociedade de São Vicente de Paulo. Podemos encontrar muitas matérias que falam e explicam sobre aspectos técnicos no exercício da liderança. Este assunto, hoje, encontra-se em vários livros e cursos dirigidos a empresas, organizações governamentais e não-governamentais e em quase todos os grupos e organizações de nossa sociedade.

Interessante, porém, que em muitos livros se tem usado exemplos da liderança de Cristo e de outros santos de nossa Igreja. Muitas receitas e orientações básicas e fáceis de serem explicadas.

Uma das dificuldades que encontramos hoje em todas as associações ou grupos de trabalhos é a falta de compreensão de que o líder não pode sentir-se acima dos seus liderados; o líder não é melhor do que o grupo que lidera. Ele coordena um grupo e para este grupo deve dedicar-se. Os objetivos do grupo serão buscados por todos os integrantes, tendo na liderança seu condutor, seu orientador e, num enfoque mais profundo, seu principal servidor.

Porém, em muitos grupos e organizações o que vemos são líderes mais preocupados em aparecer, tornar-se os mais importantes. Querem a todo custo ser conhecidos e reconhecidos como os melhores. “Dê poder a uma pessoa e você a conhecerá”.

Vemos muitas pessoas que mudam completamente de atitude e de comportamento após assumirem a liderança de algum serviço. Sentem-se importantes e começam a agir de forma bem diferente do que eram antes de ocupar um cargo. Para eles, liderar um grupo não é ser um servidor de seus liderados, mas, sim, uma oportunidade de aparecer e conquistar os elogios das pessoas, sentindo-se o mais importante dos homens.

Pena que esta prática ocorre também em grupos religiosos e, no nosso caso, em muitas lideranças de Unidades Vicentinas. Misturam o conceito de servir a seu grupo, a seus liderados, com o conceito de servir a seus próprios interesses. Faltou-lhes preparo para ocupar um cargo de liderança numa comunidade de irmãos. Confundiu a Sociedade de São Vicente de Paulo com um trampolim para chegar ao topo que sua vaidade humana sempre sonhou.

 

Liderança na Sociedade de São Vicente de Paulo

Conforme dissemos acima, o mais importante trabalho de um confrade ou consócia é o que realiza nas suas experiências caritativas, que são vividas plenamente em sua Conferência. É na Conferência que encontramos fonte de ensinamento para nossa caminhada de construção do Reino de Deus. É nela que encontramos a fonte para perseverarmos em nossa Vocação Vicentina.

Entretanto, com o crescimento da Sociedade de São Vicente de Paulo, necessitamos de pessoas boas e preparadas para presidirem e dirigir nossas Unidades. Muitos Conselhos e Conferências existem e, se não tivermos lideranças para assumi-las, poderão ter que ser fechadas. Não é esta a intenção de ninguém. Presidentes de Conselhos, Obras ou Conferências apenas se dispuseram a algo a mais pela Sociedade de São Vicente de Paulo. Em momento algum deveriam sentir-se mais importantes que os outros por ocupar algum encargo vicentino.

Quando exerci a missão de presidente nacional da Sociedade de São Vicente de Paulo pude perceber de perto como existem vicentinos que têm uma visão errada de nossas lideranças. Acham que eles são mais importantes que os demais.

Quantos vicentinos me cumprimentaram de uma forma “seca” e após alguma pessoa, ao seu lado, dizer “este é o presidente nacional” eles voltaram, pediram desculpas e cumprimentaram novamente, agora com mais entusiasmo e com certa deferência... Quer dizer, por ser o presidente merecia outro tipo de cumprimento? E depois que acabou meu mandato? Como passei a ser cumprimentado?

Caras amigas e amigos, cito isto para ilustrar que mesmo entre os liderados existe certa confusão sobre a maneira certa de liderar. Muito por culpa dos líderes que cultivaram esta ideia por muito tempo em nosso meio.

A liderança Vicentina precisa ser aquela que busca incansavelmente liderar como Jesus liderou. Não precisava usar armas, seja arma de fogo ou a arma da vaidade do poder para falar e agir por seus liderados. A palavra do Amor imperava em suas relações. Viveu, pregou e liderou sem exigir nada em troca. Sabia que Judas o trairia, sabia que Pedro o negaria... Mas ele não mudava sua forma de liderar. Liderava por amor. Não queria o retorno de seus liderados por exigência de sua força e poder, mas sim pela vivência de respeito e amor entre eles.

São Vicente de Paulo e Frederico Ozanam viveram também esta experiência. Sabiam de sua capacidade de liderar, mas nunca usaram suas funções para se destacarem individualmente. Construíram relações que os tornaram líderes naturalmente.

Frederico Ozanam nunca ocupou a função de presidente na Sociedade de São Vicente de Paulo, mas nem por isto deixou de ser reconhecido como o principal fundador de nossa associação.

A Sociedade de São Vicente de Paulo precisa cada vez mais de verdadeiros líderes. Mulheres e homens que querem se doar por um ideal. Pessoas que querem seguir a Cristo e para isto dedicam-se à causa vicentina. Sabem que com seu trabalho e testemunho poderão colaborar muito na salvação de outras pessoas.

 

Conselhos para Lideranças Vicentinas

 

Longe de mim querer demonstrar que sou melhor liderança que outros confrades ou consócias. Pelo contrário, bem sei de tantas e tantas limitações que tenho. Mas a experiência que a Sociedade de São Vicente de Paulo possibilitou me dá segurança para arriscar algumas orientações para nossas lideranças e também para nossos vicentinos, para que possam cobrar seus líderes quando necessário.

A experiência como coordenador de Comissão de Jovens em quase todos os serviços da Sociedade de São Vicente de Paulo, presidência de um Conselho Metropolitano e depois do Conselho Nacional me oferece segurança para apresentar-lhes algumas dicas e sugestões:

 

1. Pelo tamanho de nossa Sociedade de São Vicente de Paulo, temos uma estrutura grande e muitas vezes difícil de ser entendida e vivida por nossos membros. O líder precisa colocar esta estrutura a serviço de seus membros. O fato de existir os Conselhos em vários níveis é a pura manifestação de que eles devem ser como que fonte de busca de apoio e orientação aos confrades e consócias. Temos uma estrutura para facilitar nossa organização e administração. Todos os líderes dos Conselhos Centrais, Metropolitanos, Nacional e Internacional devem estar a serviço de seus membros, ou seja, de todos os vicentinos.

 

2. Os dirigentes vicentinos, estando a serviço de seus confrades e consócias, precisam sempre orientar para que haja um bom trabalho vicentino de seus liderados. Ter membros focados em nosso carisma e realizadores exemplares de sua missão é o sonho de todo líder. Esta é a grande missão do dirigente. Sabemos que implementar aspectos tais como aqueles empreendidos pela construção civil, construir ou ampliar sede, reformar banheiros etc... ou ainda o acúmulo de um caixa “gordo” para seu Conselho ou Obra não é sinal de sucesso de administração vicentina. O que pesará para um líder será a certeza de que seus liderados não perderam o foco de seu carisma. Vivenciam em plenitude sua vocação vicentina.

 

3. A liderança precisa estar aberta às críticas. Coitado do líder que imagina que sempre está com a razão. Minha experiência deixa claro que ter apenas “bajuladores” ao redor do presidente não permite que corrija os erros de sua gestão. Quando não demonstramos abertura para que pessoas bem intencionadas se aproximem para externar suas críticas passamos a trabalhar envolvidos pela falsa esperança de que tudo que parte de mim é acertado e o melhor para a Sociedade de São Vicente de Paulo. Presidimos um Conselho que é composto por várias pessoas e dar abertura para que elas participem verdadeiramente da condução e execução dos trabalhos é ser fiel à responsabilidade de nosso encargo.

 

4. Saber usar toda a estrutura de nossa diretoria é prenúncio de uma boa gestão. Além dos membros da diretoria tradicional, vices, secretários e tesoureiros, que devem ter funções ativas na vida do Conselho, nossos departamentos, Comissão de Jovens, Coordenadores de ECAFO, Conferência de Crianças e Adolescentes e Comunicação, são importantes aliados para um trabalho em equipe e mais bem organizado e estruturado. No caso específico de nossas ECAFOs precisamos dar-lhes estrutura e condições para colaborar na formação de líderes. Eles possuem importantes ferramentas que serão primordiais nesta preparação. A Sociedade de São Vicente de Paulo precisa preocupar-se sempre em preparar, formar e orientar novos líderes, para que tenhamos um presente e futuro mais tranquilos em nossa organização.

 

5. Não existe um bom líder vicentino sem a humildade. A liderança precisa se colocar como inferior aos seus liderados. São Paulo nos diz: “Não façam nada por competição e por desejo de receber elogios, mas por humildade, cada um considerando os outros superiores a si mesmo. Que cada um procure não o próprio interesse, mas o interesse dos outros. Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo”[1].

 

Caros confrades e consócias, temos uma Associação que cresceu e perseverou há quase dois séculos. Isto é sinal da presença do Espírito Santo em nosso meio. Precisamos, porém, trabalhar por uma Sociedade de São Vicente de Paulo cada vez mais organizada e mais santa.

Precisamos, para isto, de lideranças verdadeiramente voltadas para nosso Espírito e dispostas a construir o Reino de Deus a partir do aqui e do agora. Ajudemos nossos líderes rezando por eles e orientando-os a caminhar de uma forma serena e santa.

Encerro pedindo para todos os líderes de nossa Sociedade de São Vicente de Paulo o que pedi para mim durante os quatro anos à frente do Conselho Nacional: “Senhor, peço-lhe: sabedoria, serenidade, santidade e humildade em toda a minha caminhada como dirigente”.




[1] Fl 2, 3-5.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Planejar bem o ano


Planejar bem o ano

As leituras do ultimo domingo (5 de janeiro) foram muito inspiradoras, em especial para quem se move pela vocação vicentina.  Três mensagens pelo menos nos saltam aos olhos: a necessidade de planejar bem o ano; o deixar-se guiar pela luz de Deus, e a necessidade de não ter medo (se seguimos o plano de Deus para nós).

Primeiramente, a necessidade de definir um plano para nós.  Na carta aos Efésios (Ef 3,2-3a.5-6), São Paulo vai logo dizendo que tem um plano para si mesmo: “se ao menos soubésseis da graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito”.

Neste período do ano, estabelecemos muitas metas: um novo emprego, uma nova etapa nos estudos, a perda de peso, o inicio de um esporte, a compra de algo que sempre sonhamos.  Esta prática é muito salutar: devemos ter um plano para a nossa vida, no longo prazo e no curto prazo.  Quando temos metas de longo prazo, as dificuldades do curto prazo passam a ser vividas com muito menos sofrimento, porque o que importa é alcançar as metas.  Um plano de metas dá a nós uma perspectiva da construção do futuro e nos facilita na escolha das “batalhas a lutar e as batalhas a ignorar”.  Não é necessário ter um plano de mudança do mundo; podemos somente tentar mudar a nós mesmos, através da aproximação a Deus, servindo aos outros e rezando mais: em essência, nisto consiste a vivência das três virtudes teologais expressadas por São Paulo: fé, esperança e caridade.  Ao sentarmos para escrever nosso plano para o ano, ofereçamo-lo a Deus, como súplica por nossa própria santificação, uma oferenda alegre, empreendedora e repleta da esperança do aumento de nossa intimidade com Ele.  Uma vez escrito o plano, basta por “mãos à obra” e fazer boas escolhas.  No Evangelho de Mateus (Mt 2,1-12), os reis magos primeiro louvaram ao Menino Jesus e depois deixaram os presentes (e eram presentes de muito valor): “Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra”.

Em segundo lugar, as leituras nos exortam a nos deixar guiar pela luz de Deus.  O profeta Isaías (Is 60,1-6) já nos diz que, com o nascimento de Jesus, chegaria a luz e ela seria a fonte de toda a esperança: “Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor. Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti.  Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora”.  Se o nascimento de Jesus não for causa de uma mudança em nossa vida, para melhor, então, não valeu a pena Jesus ter nascido.  Não podemos nos colocar na contemplação da beleza estética do presépio, porque a gruta de Belém é, na realidade, o nosso interior: Jesus nasce em cada um de nós.  Mas Ele está no fundo; é preciso caminhar e se deixar guiar pela estrela, para alcançar a gruta: “e a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino”.  Não foi fácil encontrá-Lo para os Reis Magos: tiveram que caminhar muito, carregando os presentes e, certamente, passando por dificuldades no caminho.  Mas quando O encontraram, suas vidas mudaram, porque a estrela que estava no céu se transformou na Luz para a vida: “ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande”.

Finalmente, com o seu nascimento, Jesus nos motiva a não ter medo de nada, se seguimos a Sua estrela, o seu caminho.  A expressão “não tenhais medo” aparece dezenas de vezes na Bíblia.  Foi mencionada inúmeras vezes pelos Papas João Paulo II e Bento XVI: quem não se lembra das célebres homilias das missas de inicio de seus papados?  Ao nos defrontarmos com situações de medo, podemos ter duas opções: a reação pela natureza (como fez Herodes) ou a da graça (como fizeram os Magos).  Herodes imediatamente percebeu a ameaça que um pobre menino, nascido em uma gruta, representava para os poderosos: ele viu que o menino não era igual aos outros, porque ele transformava as pessoas, dando-lhes uma esperança eterna, o que ele, como líder político não conseguia fazer.  Sua reação foi forjar uma situação de traição covarde, ardilosa, feita às escondidas.  “Então Herodes chamou em segredo os magos e procurou saber deles cuidadosamente quando a estrela tinha aparecido.  Depois os enviou a Belém, dizendo: ´Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo´.”

Quando finalmente nos defrontamos com a Estrela, com a Luz divina que está dentro de nós, nossa reação diante do medo deve ser de absoluta confiança, porque Deus sempre nos indicará o caminho.  No caso dos Magos, Ele lhes falou por meio do sonho (“Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho.”).  Em nossa vida cotidiana, Ele nos fala através dos eventos mais simples.  Para nós, que temos a vocação vicentina, a Estrela-guia nos aparece no templo divino da casa do assistido.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O que é liberdade?


O que é a liberdade?

                                                                     Eduardo Marques Almeida

Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade e a verdade vos livrará” (Jo 8, 31-32).

 

Neste tempo de Advento, Deus nos apresenta a oportunidade de meditar sobre o que é ser livre.  Jesus nasce em meio a uma perseguição aos mais indefesos e o faz em total liberdade, em um local aberto, pobre e sem recursos: sem a prisão social que nos impomos, da preocupação com a imagem, com o que temos, com a nossa reputação diante dos outros, com nossa persona.   

Por outro lado, oferece-nos uma visão: a estrela-guia, o caminho a seguir, sem o temor da perseguição, sem o medo da perda ao longo do caminho, e com a perspectiva do encontro do tesouro.

O tema da liberdade tem muito a ver com aquelas e aqueles que se deixam encantar pela vocação vicentina do serviço direto aos pobres.  Ao nos alimentarmos da Palavra, como única fonte de verdade, e, portanto, de liberdade, colocamo-nos ao serviço dos que a perderam.

Mas o que significa liberdade?  Liberdade significa ter opções.  Uma pessoa que não tem opções não é livre!  Os pobres que não têm acesso aos serviços básicos, aos seus direitos humanos, ao mínimo necessário para construir a sua  dignidade são cativos. 

Nossa missão é a busca da liberdade para os que não a têm, criando para eles as opções para que progridam e para que os seus filhos, e os filhos dos seus filhos, possam também ser livres, possam ver a luz.  Esta é a nossa missão!

O período das festas que iniciamos é, portanto, uma oportunidade de reflexão sobre como podemos tornar concreta esta nossa missão.  Gostaria de motivar esta reflexão através de três casos de pessoas que perderam a sua liberdade.

Comecemos por Vidal.  Vidal é um paraguaio que sempre foi muito ativo na paróquia, na pastoral de casais e que tem dois filhos.  Por uma desgraça em sua vida, cometeu um erro, um cheque sem fundos da conta de sua tia, em um momento de desespero.  Eu o visito sempre que posso na prisão de Assunção, onde ficará por, pelo menos, um ano.  Sinceramente, não tenho a certeza de que ele terá a liberdade quando sair da prisão, porque não terá como recuperar seu trabalho anterior, nem mesmo um novo trabalho digno.  Talvez, sem opções, ficará cativo para sempre. 

Passemos a um outro país.  Françoise é uma haitiana que, como 80% da população do Haiti, vive de vender frutas e legumes na rua.  O único capital de giro que tem é uma cesta com uns vinte dólares de mercadoria que vende todos os dias: eles lhe possibilitam levar uns  dólares hoje para dar de comer aos seus cinco filhos; os outros dezessete, utilizará amanhã às quatro da manhã, para comprar suas frutas e legumes e recomeçar o ciclo diário. 

Eu me pergunto se Françoise conquistou a sua liberdade, mesmo com o final da escravidão no Haiti, no século XIX?

Um dia, passando de carro por um dos mercados populares da rua, eu a conheci em uma situação muito particular.  Um dos caminhões que despeja carvão todos os dias para a venda no mercado, ao fazer uma manobra na calçada, passou por cima da cesta de Françoise e a amassou completamente.  Era ainda o período da manhã e quase todo o capital de giro da Françoise estava na cesta e, evidentemente se perdeu.  Eu saio do carro, converso com ela, desculpando-me meio sem jeito, pelo que tinha feito o motorista do caminhão.  Lhe pergunto como poderia ajudar e a sua resposta foi direta: não tem problema, amanhã começo novamente. 

Agora, eu me pergunto, quem é mais livre: se Françoise ou eu, que passava todos os dias pela mesma rua, em meu carro blindado e rezava à distância pelos pobres do mercado.  Todos os dias, ao acordar, eu me lembro do que me disse Françoise: hoje, eu vou começar novamente!

Nelson era um negro da África do Sul que nasceu e viveu a maior parte de sua vida sob um regime duríssimo de segregação racial.  Foi o único de sua comunidade que conseguiu graduar-se na universidade.  Logo percebeu que a sua missão não era ganhar a vida como advogado.  Percebeu que nascera para utilizar seus dons para advogar por uma nação de quarenta milhões e mudar a história.  Uma história que todos conhecemos bem.

Das muitas facetas da vida de Mandela, a que mais me impressiona é a sua capacidade de estar por vinte e sete anos em uma prisão, sem estar preso: ao sair do que deveria ter sido um lugar de acúmulo de ódio, o que mostrou foi um soriso que transparecia paz.

Sua visão era muito maior do que ele mesmo: esta era a sua diferença, o seu valor.

Convido à reflexão por ocasião destes dias sobre o quanto nos temos convencido de que nossa missão pode ser maior do que nós mesmos.  Sobre quantas vezes nos impomos uma prisão e nos esquecemos de olhar um pouco mais adiante, mirar os Vidais e as Françoises que passam por nossa vida todos os dias e que precisam de nossos empreendimentos. 

Começo por mim: tenho que utilizar os dons que Deus me deu de graça, minha capacidade intelectual, minhas relações, para que eles possam sair de suas prisões, conquistando sua liberdade e sua dignidade.  Com isso, talvez eu me liberte.

Françoise tinha razão: tenho que começar de novo hoje!

domingo, 8 de dezembro de 2013

Historia da Imaculada Conceição de Maria


Historia da Imaculada Conceição de Maria 

Foi assim: Ana e Joaquim já estavam casados há cerca de vinte anos sem que conseguissem ter filhos, o que entre os judeus da época era visto quase como uma maldição. Certa feita, Joaquim teve sua oferenda recusada no templo, já que, por não ter filhos, ele não parecia estar nas boas graças do Senhor. Decepcionado e sentindo que aquela era ainda mais uma punição do Senhor, Joaquim decidiu se retirar para as montanhas com seu rebanho, abandonando Ana. De acordo com o Evangelho de São Tiago, Joaquim teria se recolhido em retiro, jejuando e se abstendo da companhia da mulher.

Ana que já não tinha filhos, se viu também abandonada pelo marido e resolveu orar, pedindo ajuda ao Senhor. Em resposta às suas preces, apareceu um anjo do Senhor que a tranqüilizou, avisando que suas preces tinham sido ouvidas e que em breve seu marido retornaria e eles teriam o tão esperado filho. O mesmo anjo apareceu a Joaquim na montanha, para onde ele havia se retirado com seu rebanho, instruindo-o a voltar para casa por que Ana, sua mulher, havia concebido o filho que tanto desejava.

Joaquim obedeceu prontamente e, ao encontrar com Ana, os dois teriam se abraçado e trocado um beijo no rosto – momento que foi, erroneamente, retratado como o instante em que se teria dado a concepção de Maria. Segundo ambos evangelhos, portanto, a semente que gerou Maria, no ventre de Ana foi plantada pelo Senhor.

Apesar de Alguns teólogos e Doutores da Igreja, como Santo Anselmo, São Bernardo e São Boaventura, chegarem a negar a Imaculada Conceição de Maria, São Tomás de Aquino, o grande doutor da Igreja deixa claro o ponto.

No livro primeiro dos comentários dos livros das Sentenças (Sent.), escrito provavelmente em 1252 e quando São Tomás contava apenas 27 anos de idade, ainda no início de sua atividade acadêmica em Paris, ele escreveu o seguinte:

"Ao terceiro, respondo dizendo que se consegue a pureza pelo afastamento do contrário: por isso, pode haver alguma criatura que, entre as realidades criadas, nenhum seja mais pura do que ela, se não houver nela nenhum contágio do pecado; e tal foi a pureza da Virgem Santa, que foi imune do pecado original e do atual." (I Sent., d. 44, q. 1, a. 3)

Depois, na segunda parte do Compêndio de Teologia (CTh.), que pertence a um período anterior ao da elaboração da III da Suma Teológica, escrito quando Tomás já contava com cerca de 42 anos de idade, sendo provavelmente do ano de 1267, escreveu:

"Como se verificou anteriormente, a Beata Virgem Maria tornou-se Mãe de Deus concebendo do Espírito Santo. Para corresponder à dignidade de um Filho tão excelso, convinha que ela também fosse purificada de modo extremo. Por isso, deve-se crer que ela foi imune de toda nódoa de pecado atual, não somente de pecado mortal, bem como de venial, graça jamais concedida a nenhum outro santo abaixo de Cristo... Ela não foi imune apenas de pecado atual, como também, por privilégio especial, foi purificada do pecado original." (CTh. c. 224)

Finalmente, no final da sua vida, aos 48 anos, escreveu em seu sermão Expositio super Salutatione angelicae: “Ela é, pois, puríssima também quanto à culpa, pois nunca incorreu em nenhum pecado, nem original, nem mortal ou venial”.

No dia 8 de dezembro de 2007 o papa Bento XVI, após a recitação do Angelus, comentou que nesta festa solene se recorda que "o mistério da graça de Deus envolveu desde o primeiro instante de sua existência à criatura destinada a converter-se na Mãe do Redentor, preservando-a do contágio com o pecado original. Ao contemplá-la, reconhecemos a altura e a beleza do projeto de Deus para cada ser humano: chegar a ser santos e imaculados no amor (Efésios 1, 4), a imagem de nosso Criador."

Fonte: Pesquisa de Márcia Bonnet e documentos de São Tomás de Aquino